A DEPRESSÃO
Por que a depressão maltrata tanto o corpo? Por que ela invade tanto o sentimento, o íntimo do ser ao ponto de derrubá-lo e fazê-lo cometer tantas atrocidades com os outros e com ele próprio?
Para que serve o sal se ele perde o sabor? Para que serve uma lâmpada se ela perde a capacidade de iluminar? Qual a serventia do ser humano pensante se ele se torna incapacitado de amar? Para que serve o livre-arbítrio e a responsabilidade da totalidade dos pensamentos e sentimentos que fluem de cada um de nós.
Sim, somos irresponsáveis no usufruto da administração do que de nós é exalado.
Afinal, que diferença temos nós, seres humanos terrestres, dos animais, nossos irmãozinhos inferiores na escala evolutiva característica deste planeta?
Cabe a cada um administrar as próprias energias inerentes à nossa condição ímpar de ser pensante e responsáveis pelos próprios atos. Cabe à pessoa administrar o conjunto dos seus sentimentos e dos seus pensamentos que são marcados de forma indelével na sua própria aura, no próprio campo energético que o rodeia, que envolve o corpo terrestre e o espírito eterno a ele transitoriamente imantado.
Diante dessa responsabilidade de manter em si mesmo, a luz do bom ânimo, a luz do esforço incessante, do melhoramento íntimo, da procura do “amar sempre aos outros” exigindo muito de si mesmo e pouco ou quase nada dos que nos rodeiam, do procurar ser compreensivo, etc., etc.
Diante dessa responsabilidade, quando desistimos de administrar a nós próprios, quando nos tornamos vítima de nós mesmos e das circunstâncias que nos rodeiam a existência, circunstâncias essas causadas, seja por efeito de atos do passados ou mesmo por conseqüências de erros do presente, ou pelo conjunto disso tudo, e mais ainda, de erros advindos da pouca vigilância dos espíritos encarnados que convosco convivem no contexto familiar, no trabalho, etc., o conjunto dessa circunstâncias quando se tornam muito forte e por isso desistimos de administrar o nosso próprio combustível existencial, aí sim, a exemplo do câncer que destrói as células do corpo, esse câncer espiritual-energético, atua no campo psicológico, destruindo as defesas espirituais energéticas do ser, do espírito encarnado.
E tal qual a morte em plena vida, o espírito que assim se permite sentir, morre — no sentido espiritual — mesmo tendo um corpo ainda vivo, atuante e que se movimenta. Mas, o espírito deixa de gerar em si mesmo, ou de administrar o fluído vital, essencial, conjuntamente com suas energias cerebrais, mentais, para fazer brilhar a si mesmo enquanto ser existente e pensante.
Para que serve um ser vivo e pensante se não tenta, se não assume as suas próprias condições, se não tem plasmado na sua própria personalidade as suas conquistas, se não ajuda a si mesmo e aos outros, etc.? Para que serve o sal se ele perde o sabor?
A depressão é responsabilidade de cada um. A química da farmacologia terrena, o usufruto dos interesses, as vezes inconfessáveis, das grandes organizações, das macro-forças que governam a vida na Terra e que por nós são dificilmente, produzem os remédios de forma a “terceirizar” as responsabilidades do ser. Esses remédios, quando comprados, atacam apenas as conseqüências sem atingir as causas, e atacando sempre as conseqüências dos nossos atos pouco vigilantes, nos permitimos o culto da inconseqüência constante. Ou seja, esses remédios atacam a “dor de cabeça”, mas não trabalham a causa psicológica do destempero temperamental, do orgulho, da inveja, do desamor, que às vezes a produz.
Ao nos acostumarmos a má administração das próprias forças espirituais, que através de desajustes temporários provocam no corpo certos tipos de dores de cabeça, mais fácil será sempre comprar um remédio, tomá-lo, e passar a dor de cabeça do que reformar o íntimo de nós próprios, tentando dominar a conduta indesejável e equivocada que nos leva, a mais das vezes, a exigir tudo de todos, e quando nada recebemos explodimos em rebeldia e revolta histéricas.
Mas assim é, assim se processa a vida terrena. E somos todos algozes de nós mesmos, porquanto vítima nos tornamos do sistema e a depressão é apenas um dos painéis que nos invade a alma, quando pouco vigilante ou incapacitados nos tornamos temporariamente na administração das nossas próprias forças existências.
A oração, a vigilância, a insistência da postura amorosa, do muito dar ou do algo dar e do nada exigir ou pouco exigir. O perdão necessário em todos os momentos, o amor fraterno, a caridade, a solidariedade, a compreensão e a compaixão, tudo isso é como alimento que edifica no nosso próprio espírito, a Luz que nos protege e nos permite viver de forma a vibrarmos harmoniosamente com as forças cósmicas.
Mas, quando nos desconectamos desse circuito, por pouca vigilância, “esse vírus” a que chamais de depressão, tristeza, desânimo, de fato, tal qual alimento estragado a invadir o corpo e causar lá os seus desajustes intestinais, da mesma forma esse alimento estragado nos invade o espírito, e quando assim acontece, por nossa própria responsabilidade e pouca vigilância, cometemos danos difíceis de serem sanados à nossa própria alma. Quando o “vírus espiritual do desânimo” nos invade a psicologia existencial o corpo físico começa a sua produção química característica da depressão. E quanto mais triste, desesperados e deprimidos nos permitimos ficar maior é a produção química que as nossas células corporais praticam para sustentar a depressão. Os remédios — muitas vezes necessários para romper o circuito depressivo — equilibram a química do corpo, atuando na psicologia fragilizada, mas não resolve a questão da tendência espiritual.
Portanto, Jesus nos advertia: “tendes sempre bom ânimo”, porque quando temos bom ânimo mantemos acesa a nossa Luz existencial e por mais erros que cometamos e por piores que sejam as circunstâncias da vida, essa coisa chamada depressão, desânimo, esse verdadeiro vírus para o espírito, de nós não se aproxima.
Sede, portanto, caminhante que jamais se detém na busca da elevação das próprias vibrações, tendo sempre bom ânimo diante de tudo.
Irmão Enéas
Natal (RN) – fevereiro de 2000.
