A Quarta Ferida Narcísica do Homem.
Quando pensamos em narcisismo no senso comum, logo lembramos daquele sujeito conhecido por gabar-se para os outros, alguém prepotente ou arrogante. De fato, isso pode ser característica do sujeito narcísico, entretanto, não se trata apenas de uma característica que certas pessoas têm. Todo ser humano tem o seu grau de narcisismo, mais evidente ou menos evidente, assim como seus velhos sistemas de compensação, seja diminuindo o outro por inveja, ou se enlevando como alguém mais especial e puro que os demais. O fundamento desta atitude muitas vezes é o medo, o desamparo, a necessidade de proteger-se do desconhecido e permanecer na segurança, como se ainda estivéssemos no “colo de nossos pais”. Segundo a psicanálise, uma criança é considerada narcisista, pois o mundo gira ao seu redor, tudo o que ela deseja é receber , saciar seus desejos seja de aprovação, incentivos, o que seja. Com o amadurecimento, ela aprende a direcionar sua energia para o mundo, a considerar os demais. A diferença do conceito de “crescer” ocorre nesse momento quando a nossa energia (que Freud chamava de pulsões) passa pelo restante do mundo, acontecendo uma via de mão dupla, uma troca. A energia retorna à origem, mas algo também foi doado, transformando o contexto ao redor positivamente, sem a finalidade da satisfação direta e egoísta.
Ocorre que o mundo hoje é mais consumista que nunca, dos recursos naturais, dos recursos humanos, de seus próprios delírios. A falta de amadurecimento no contexto “humanidade” gera a depredação ecológica, as ambições desmedidas, a irresponsabilidade, a proeminência do lado sombrio destrutivo. Apesar do pensamento científico ter feito cair por terra muito dos dogmas e manipulações religiosas, as pessoas em seu lado humano, demasiado humano, carregam o arquétipo do desamparo dentro de si, sendo que a idolatria acaba elegendo como deuses, aqueles que tem mais dinheiro, fama, ou aqueles que usam sua inteligência sagaz ou até a própria ciência para escravizar ou diminuir os outros.
O psicanalista Sigmund Freud, acreditava por exemplo, que a religião era uma forma de crer nesse zelo de algo superior. Entretanto, o objetivo aqui não é sucumbir ao racionalismo extremo, afinal colocar a ciência como monarca máximo do saber é também uma forma de desejar o controle do que está ao redor, evitando “ferimentos” ao ego. Ilustrando o que é narcisismo, podemos chegar ao conceito de feridas narcísica. Como podemos refletir, pensar em formas de lidar com nossa impotência, com o sentimento de menos valia, aquilo que fere nossa auto-importância?
A humanidade com sua suposta soberania na terra, no seu isolamento cósmico, nos seus mundos particulares, tendeu a assumir uma postura narcísica, no sentido mais clássico. No pensamento psicológico, talvez careçamos de um “pai”. Desamparados em um planeta azul que navega o cosmo, injetamos a energia em nós mesmos, cada vez mais diretamente, sem nos responsabilizamos com “os outros”. Como crianças navegantes do espaço, mas já desprovidos da inocência de recém-chegados, drenamos da mãe natureza, sem hesitar. Aprender a crescer e a olhar para o coletivo, talvez seja o único modo de nos “redimir”, ou pelo menos, sobreviver. Desejamos compreender o universo que nos cerca e muito do nosso modo de pensar sofreu alterações.
A ferida narcísica pode ser observada como fenômenos que tangem a subjetividade, entretanto existem marcos, que segundo o teórico da psicanálise Sigmund Freud, atingiram a humanidade coletivamente. Tendo compreendido o que se trata uma ferida narcísica, podemos inspecionar um pouco o que são esses “golpes no ego” delineados por ele, cujo os impactos alcançam a todos os indivíduos, como um ponto de vista, uma reflexão de nossa história:
1) Heliocentrismo: “A terra não é o centro do universo”.
A primeira ferida narcísica do homem veio com a revolução científica de Nicolau Copérnico, que se opôs à concepção geocêntrica de Ptolomeu e da Bíblia, que tinha sido aceita como dogma por mais de mil anos. Em 1500, relativamente recente em “anos históricos”, tal concepção era inadmissível e uma ofensa aos ditames da igreja e ao pensamento do homem comum. Depois de Copérnico, a Terra deixou de ser o centro do universo para tornar-se meramente um dos muitos planetas que circundam um astro secundário nas fronteiras da galáxia; e ao homem foi tirada sua orgulhosa posição de figura central da criação de Deus. Copérnico estava plenamente cônscio de que sua teoria ofenderia profundamente a consciência religiosa de seu tempo; ele retardou sua publicação até 1543, ano de sua morte, e, mesmo assim, apresentou a concepção heliocêntrica como mera hipótese. Kepler e Galileu levaram adiante tal afirmação, um golpe na auto-estima humana.
2) Evolucionismo: “O homem não tem ascendência divina, mas dos macacos”.
A segunda ferida no narcisismo do homem viria com o naturalista Darwin e a teoria do Evolucionismo. O naturalista lançou a idéia de que as populações se diferenciam aos poucos, de geração em geração, sofrendo alterações genéticas: animais e plantas mais adaptados ao ambiente sobrevivem e se reproduzem, passando seus genes aos descendentes. Por volta de 1838, sua teoria golpeou mais uma vez o narcisismo do homem e as concepções religiosas da época. O homem não seria descendente de algo divino e nem criado “pronto”, pelas mãos de Deus.
3) O inconsciente: “O homem não é o senhor de sua própria casa”.
A terceira ferida narcísica, Freud se considera o autor. Com a descoberta do inconsciente, o homem deixa de ser o “senhor de sua própria casa”. Talvez Freud seja considerado pouco humilde por essa auto-referência nesse assunto, mas o caso é que suas pesquisas, análises, verificaram que existem coisas que estão além de “nossa consciência” e que, portanto, não podemos nos denominar soberanos nem sobre nós mesmos. O auto-conhecimento seria uma forma de podermos administrar nosso eu da melhor forma e nos responsabilizarmos por nossos atos.
E qual seria a quarta ferida narcísica do homem?
4) Consumação de um contato extra-terrestre: comprovação da existência de seres, intelectualmente, moralmente e tecnologicamente superiores ao homem.
Embora a humanidade se considere espécie dominante no planeta Terra, o universo é vasto. Inclusive, podem existir outros universos inimagináveis. O contato com seres extraterrestres, nos colocaria em xeque mais uma vez. O desamparo, medo e a ignorância do ser humano, podem fazer disso uma guerra ou uma religião. Seja pelo o ataque do medo, ou a idolatria, corremos o risco de deslocar mais uma vez o narcisismo para sua dimensão primária, do egoísmo ao parasitismo, do pânico ao amor histérico. Essa hipótese encontra-se no imaginário atual, nos filmes, nas expectativas para 2012. Narcisistas, todos nós somos, porém como no mito, quando apaixonados pelo próprio reflexo, podemos virar o Narciso, a flor, uma planta enraizada. Quando desviarmos o olhar do espelho d’água é a chance de realizar uma verdadeira troca, algo que não estamos preparados nem mesmo entre nós humanos. Provavelmente, se for o inevitável, será mais um golpe a superar.
Luciana Lebel
Psicóloga

